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INFORMATIVOS

Aves podem revelar processos com seu canto
Como humanos, pássaros canoros combinam sons para se definirem num grupo e como indivíduos

NATAL - Canários, mandarins e até beija-flores podem ensinar como se dá o processo de aprendizado e memorização. Cláudio Mello, brasileiro da Oregon Health and Science University, estuda pássaros canoros para identificar os mecanismos neurais da vocalização - afinal, tirando os pássaros, apenas cetáceos, como baleias e golfinhos, e nós mesmos somos capazes de utilizar uma combinação de sons para nos definir ao mesmo tempo como parte de um grupo e como indivíduos.

E certas semelhanças não são meras coincidências. "Os pássaros canoros têm de ouvir, quando filhotes, o canto de outro da mesmo espécie. Depois, ele vai tentar repetir aquele padrão, introduzindo alguns toques pessoais", explica Mello.

Privado desse padrão na infância, um canário ou um mandarim, assim como uma criança, ainda será capaz de aprender, mas seu canto não será perfeito. Ele ainda terá de repetir várias vezes seu canto, compará-lo com aquele padrão, até atingir o que "considera" perfeito. Se não estiver perfeito, os neurônios da ave vão comunicar a seu sistema motor que seu programa terá de sofrer algumas alterações.

Privado da audição do próprio canto, o pássaro também não terá uma vocalização perfeita - da mesma forma que as crianças surdas que aprendem a falar. "Nós queremos entender o caminho do som e como ele é decodificado", diz o pesquisador.

Dialeto - Pássaros têm dois excelentes motivos para cantar. Na maioria das espécies, quem canta é o macho, para conquistar a fêmea. O canto também o identifica como parte de um grupo.

"Pássaros da mesma espécie separados por barreiras geográficas acabam desenvolvendo uma espécie de dialeto. Há inclusive hipóteses de que o canto seja um dos fatores envolvidos na especiação, na criação de espécies. Se a fêmea de um grupo não identifica mais o canto com dialeto 'carregado', ela não vai cruzar mais com aquele macho", exemplifica. Ao longo de milhares de anos, os dois grupos podem se tornar espécies diferentes.

O outro bom motivo é se identificar como indivíduo no grupo. "Existe uma base genética que permite que ele cante, um processo de aprendizado, mas também um toque pessoal, de forma que não existem dois canários, por exemplo, que cantem da mesma forma", conta Mello.

"Nós queremos saber quais células, quais grupos de células e quais genes estão envolvidos nesse processo", diz o pesquisador. Entre esses genes está o ZENK, um fator de transcrição - gene que ativa outros genes - responsável pelo reforço que transforma a memória de curto prazo em memória de longa duração.

Fonte: Jornal Livre

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